
O baixo índice de chuvas, as altas temperaturas e a sequência de meses com pouca precipitação afetaram o sistema de abastecimento de água da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), sobretudo, o sistema da Cantareira.
Nesta terça-feira (28/01/2014), o sistema atingiu apenas 22,9% de sua capacidade. Na mesma data de 2011, o nível era de 94,3%; em 2012 era de 74,8% e em 2013, 52,3%.
Contudo, a falta de chuvas também afeta outros sistemas que estocam água para a Grande São Paulo.
Os fortes temporais causados pelo calor excessivo não são suficientes para acabar com o problema, pois, segundo a Sabesp, não há como represar a água e aproveitá-la depois.
De acordo com o Superintendente de Produção de Água da Região Metropolitana, Marco Antonio Lopez Barros, a localização das precipitações é um agravante para a situação.
— As chuvas que têm caído no mês de janeiro são localizadas na maioria das vezes nas regiões urbanas e não onde realmente nós precisamos que é na área das represas.
O sistema da Cantareira fica ao norte da região metropolitana, então fica numa condição geográfica que não permite que essas águas sejam usadas para abastecimento da região.
Barros ainda explica que o destino das águas muitas vezes é o interior do Estado, já que as chuvas caem no rio Pinheiros e são escoadas.
As chuvas são resultado de um verão com temperaturas acima da média.
Pelas medições do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), São Paulo teve a primeira quinzena de janeiro mais quente desde 1961, com média de temperatura máxima de 32° C. Isso significa que as temperaturas estão 5% acima da média histórica para o mês.
As chuvas até ajudariam a diminuir a temperatura, mas enquanto não chove o suficiente e o calor continua forte, o consumo de água se mantém elevado durante todo o dia.
Armazenamento
Desde 2012, o índice de chuvas é menor que o esperado.
O período chuvoso no Brasil compreende os meses de outubro a março, e serve para alimentar as represas.
Entre abril e setembro, época de seca ou estiagem, a água que foi armazenada no verão é utilizada para abastecer a população.
As quatro represas do Sistema Cantareira podem armazenar quase um trilhão de litros de água.
Apesar da preocupação com o sistema, a situação não é alarmante, segundo Barros.
— É interessante saber que temos oito grandes sistemas que atendem a região metropolitana, mas que não estão em situação tão crítica quanto o da Cantareira.
As previsões apontam que ao longo de fevereiro as chuvas retornem à normalidade.
Os níveis começarão a subir o que é uma garantia de que os sistemas terão água no período de estiagem.
Campanhas
O superintendente explica que, ao contrário do que muitos pensam, as campanhas para consumo consciente de água são muito eficientes.
— Recentemente começamos campanhas para que possamos passar para a população a preocupação que temos quanto às chuvas e a importância que a economia de cada cidadão traz ao sistema.
Ajudam muito, a população sempre respondem bem a essas campanhas.
Tivemos um quadro parecido com o da Cantareira em 2004 e grande parte dos bons resultados vieram das campanhas.
Além das campanhas de conscientização, Barros conta que a empresa tem tentado reduzir o uso do sistema da Cantareira.
— Nós pegamos uma parte do sistema Tietê, que fica na zona leste. Ou seja, agora, uma parte da população que consumia a água da Cantareira, consome a doTietê.
Economize
- Tome banhos mais curtos e feche o registro enquanto passa o sabonete e o shampoo. Se fecharmos o registro durante o ensaboamento e reduzirmos o tempo para cinco minutos, o consumo cai para 45 litros
- Não lave a calçada com mangueira. Use a vassoura para limpar o local
- Não lave o carro com a mangueira; use um balde e um pano. Se a lavagem dura 30 minutos e a mangueira fica aberta, o gasto pode chegar a 560 litros. Com o balde, cai para 40 litros
- Antes de lavar a louça, retire e excesso de comida com a esponja, sem usar água; deixe a torneira fechada ao ensaboar. O consumo pode cair de 240 litros para 20 litros
- Acumule as roupas para utilizar a máquina de lavar na capacidade máxima. Faça o mesmo com a louça
- Deixe a torneira fechada enquanto escova os dentes ou faz a barba.
- Molhe as plantas à noite e prefira um regador à mangueira, que pode gastar até 190 litros em 10 minutos.
- A água das piscinas montadas para as crianças também pode ser mais bem aproveitada: depois do mergulho, use a água para lavar o quintal, por exemplo.
A sequência de quedas no nível das represas do Sistema Cantareira, principal fornecedor de água para a população da Grande São Paulo, fez com que o governo de São Paulo procurasse saídas para uma possível falta do recurso. Na quarta-feira (14), o sistema chegou a 8,4% de sua capacidade, um recorde histórico negativo que vem sendo quebrado a cada dia.
Após descartar o racionamento como solução, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) iniciou obras para captar uma reserva técnica chamada "volume morto", que fica abaixo do nível das comportas. Nesta quinta-feira (15), essa água começa a ser retirada com a ajuda de bombas flutuantes. Confira, abaixo, perguntas e respostas sobre o volume morto.
O que é Volume morto?
O volume morto é um reservatório com 400 milhões de metros cúbicos de água situado abaixo das comportas das represas do Sistema Cantareira. Conhecida também como reserva técnica, essa água nunca foi utilizada para atender a população.
Por que usar essa água?
Região Metropolitana de São Paulo enfrenta uma crise de abastecimento por causa da falta de chuvas e dos consequentes recordes de queda no nível do Cantareira.
O governo do estado tentou fazer desvios para usar a água de outras represas, mas essas manobras não foram suficientes para atender toda a população da Grande São Paulo.
Após o nível do sistema atingir um patamar preocupante, a Sabesp começou a fazer obras para conseguir bombear a água do volume morto.
Por que o nível do reservatório ficou tão baixo?
Segundo o governo paulista, o mês de janeiro teve apenas 87,8 milímetros de chuva, o pior índice em 84 anos – a média histórica é de 260 milímetros. Para a oposição, a falta de investimentos na ampliação do Cantareira provocou o atual colapso.
Que investimento foi feito para retirar o volume morto?
Orçada em R$ 80 milhões, a obra da Sabesp inclui 3 km de tubulações e sete bombas flutuantes para tornar útil a reserva de 400 milhões de metros cúbicos de água que fica abaixo do nível das comportas.
Por que a reserva nunca foi usada?
O volume morto nunca foi utilizado porque o sistema de bombeamento não chegava a uma profundidade tão grande. Desde 17 de março, porém, a Sabesp começou um serviço emergencial para retirar essa água. As obras ficaram prontas nesta quinta-feira.
Quantas pessoas o Cantareira abastece?
O sistema atende uma população de 8,45 milhões de pessoas na capital paulista e Região Metropolitana. Mais 1,41 milhão de pessoas que não são abastecidas pela Sabesp também recebem água da represa.
Qual será a nova capacidade do Cantareira?
Com o uso do volume morto, a quantidade de água será suficiente para elevar o nível do sistema em mais de 18%, segundo estimam os técnicos da Sabesp. No fundo do reservatório, restariam sem uso outros 10% do volume morto.
Quanto tempo dura o volume morto?
Com essa reserva técnica, a Grande São Paulo terá abastecimento garantido até, pelo menos, novembro, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA).
Essa água é boa para consumo?
Especialistas dizem que o volume morto pode estar contaminado, inclusive com metais pesados, sendo impróprio para beber. Já o governo paulista afirma que foram feitos testes que comprovaram a qualidade desse recurso.
A conta de água ficará mais cara?
O consumidor que gastar acima da média mensal pagará 30% a mais, segundo proposta do governo paulista que deve ser regulamentada pela Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp).
Ainda não há previsão para o início da cobrança. Já os consumidores de 31 cidades da Região Metropolitana atendidas pela Sabesp que conseguirem economizar 20% receberão um desconto de 30% na conta.
O POVO PAGA A CONTA
De olho em eleições, Alckmin ignora alertas sobre desabastecimento e falta de investimento
Há onze anos governador foi alertado sobre necessidade de obras no sistema Cantareira.
A gravidade de queda no nível do reservatório e falta de recursos pintam cenário perigoso para próximos anos.
São Paulo – Um verão quente e seco como nunca soa como a explicação perfeita para uma queda alarmante nos níveis do reservatório Cantareira, o principal responsável por abastecer de água a Grande São Paulo.
Mas não é a São Pedro nem ao desperdício que se deve culpar pela ameaça de desabastecimento.
Ou não apenas: falta de planejamento por parte do governo estadual é o resumo da história que deixa sob suspense o oferecimento de um serviço fundamental para dez milhões de pessoas nas zonas norte, leste, oeste e central de São Paulo, além de moradores de dez municípios da região metropolitana da capital.
Observando os dados e conversando com quem acompanha o setor, conclui-se que a Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) deveria ter iniciado ainda no ano passado uma campanha para redução de consumo.
A queda no nível é contínua desde maio de 2013, mas só no dia 1º de fevereiro a gestão Geraldo Alckmin (PSDB) decidiu propor à população que passasse a reduzir o consumo em troca de um abatimento no valor da conta.
Com mais três semanas de seca, chegou-se ontem (16) ao menor nível da história: 18,5% do total.
Voltando um pouco mais no tempo, desde 2009 o reservatório Cantareira, composto por quatro represas, atua no limite.
O armazenamento máximo é de 990 milhões de metros cúbicos de água, mas trabalha com uma média entre 65% e 70% disso. O sistema é capaz de tratar e remeter até 33 mil litros por segundo.
O relatório final do Plano da Bacia do Alto Tietê, de dezembro de 2009, elaborado pela Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo (FUSP), já apontava a “necessidade de contar com regras operativas que evitem o colapso de abastecimento das regiões envolvidas e minimizem a influência política nas decisões”, porque o sistema tem “altas garantias de atendimento (de água), porém com déficits de grande magnitude”, o que indica que a possibilidade de queda do nível da represa era conhecida.
O mesmo relatório aponta o fato de o reservatório estar no seu limite. Isso há quatro anos. “Outra análise importante em relação ao Sistema Cantareira é que este já se encontra no seu limite de exportação. (...) Desta forma, outras medidas devem ser elaboradas para atender ao acréscimo de demanda na RMSP, como a transposição de água de outras bacias mais distantes.”
Segundo o presidente do Conselho Mundial da Água e professor de Engenharia Civil e Ambiental da Escola Politécnica (Poli) da USP, Benedito Braga, o problema é mais antigo e o relatório de 2009 seria uma reafirmação de questões colocadas há ao menos dez anos.
“A USP trabalhou para o Comitê do Alto Tietê em um plano de recursos hídricos nos idos de 2003 e lá já se falava das obras que era preciso realizar para ter segurança hídrica na região metropolitana de São Paulo. E o que é que foi feito?”
Para Braga, a demanda por água não está sendo afetada simplesmente pelo baixo índice de chuva, embora este seja um componente importante.
O problema é a falta de planejamento e realizações em determinadas áreas.
“A infraestrutura não acompanhou o crescimento da demanda. Não só pelo crescimento demográfico, mas também pela melhoria do padrão de vida da população, que agora usa mais água, mais energia, gera mais resíduo sólido.”
Uma parcela dessa dificuldade em se adequar à demanda pode ter relação com o buraco nos investimentos da companhia no ano de 1999. A Sabesp vinha em um crescente nos anos 1990, atingindo um pico R$ 1,18 bilhão em 1998. No ano seguinte, o valor foi menos da metade disso: R$ 457 milhões. O mesmo patamar só foi retomado – e superado – em 2008, quando ela investiu R$ 1,85 bilhão.
Desde então vem subindo e deve chegar a R$ 2,62 bilhões neste ano.
No entanto, diferente do que seria esperado, a Sabesp reduziu a previsão de investimento para os próximos anos, projetando R$ 2,41 bilhões em 2015 e R$ 2,27 em 2016.
O relatório é uma projeção realizada em 2013 e não considera a atual situação. Em relação a investimentos específicos para o Sistema Cantareira, a Sabesp deverá apresentar uma estratégia para melhorar o controle dos níveis do reservatório e de descargas hidráulicas apenas em fevereiro de 2015, de acordo com a minuta de renovação do direito de uso das águas do sistema.
A renovação da outorga, que deve ser assinada em agosto de 2014 e pode sofrer alterações até lá, também prevê a modernização dos postos de monitoramento de chuva, vazão, sedimentação e qualidade da água nas bacias do Cantareira.
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